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Problematizando os instrumentos “de menino” e “de menina”
Renan Santiago
Considerações Iniciais
Instrumentos têm gênero? Qual é o gênero da bateria? E da harpa? Qual é o gênero do baixo elétrico? E do violino? Pode parecer loucura, mas para alguns, os instrumentos têm gênero, ou melhor, alguns instrumentos são mais adequados para mulheres (por reforçarem a sua feminidade) e outros mais adequados para homens (por reforçarem a sua masculinidade).
Os objetos inanimados teriam gênero? Não exatamente, mas, como ressalta Louro (2014), a percepção binária de gênero é tão forte que, consciente ou inconscientemente, acaba caracterizando todo o cosmo dentro do espectro do binarismo de gênero. A autora cita, por exemplo, que o sol é visto como masculino e a lua como feminina. Essa percepção também encontra espaço na educação musical, gerando a percepção de que os instrumentos têm gênero.
Antes de mais nada, é muito importante argumentar que, nesse texto, está sendo problematizado a correlação entre gênero e instrumento em uma perspectiva ocidental e urbana. Isso porque, em diferentes culturas, instrumentos locais são sim relacionados com os gêneros masculinos ou femininos. Um exemplo claro é o que ocorre na cultura Guarani Mbya, uma etnia brasileira. Alguns instrumentos, como o popygua e o angua’pu são masculinos, enquanto outros, como a takuapu e a mimby reta são femininos. Mas essa divisão ocorre nessa cultura em específico, mas não deveria ocorrer na cultura escolar e universitária de escolas e universidades fora do contexto indígena.
Nesse contexto, o presente texto busca problematizar a relação entre gênero e instrumentos; indicar como isso é prejudicial, por produzir estereótipos e estigmas caso as(os) instrumentistas não toquem um instrumento “adequado ao seu gênero”; e reafirmar que qualquer pessoa, independente do seu gênero, pode tocar qualquer instrumento que quiser.
Gênero e instrumentos musicais
Diferentes trabalhos acadêmicos expressam que a percepção de que certos instrumentos são mais ou menos compatíveis com o gênero masculino ou com o feminino é um dado mundial. Kelly e VanWeelden (2014), por exemplo, buscaram analisar a percepção de estudantes estadunidenses sobre a relação que estes estabelecem entre gênero e instrumentos de outras culturas (reyong, gyil, angklung, cuíca, kora, sitar, suling, siku, zheing e akan), que são associados a identidade masculina em seus países de origem. Em geral, percebeu-se que instrumentos grandes são vistos como “masculinos”, instrumentos pequenos são vistos como “femininos”. Instrumentos de percussão também são considerados “masculinos”.
Semelhantemente, Hallam et al. (2006), com o auxílio de um survey empregado em larga escala e tendo como objeto de pesquisa crianças e adolescentes em idade escolar nos Estados Unidos, buscaram entender quais são os instrumentos preferidos pelos meninos e meninas estadunidenses. Tal pesquisa pode apontar que alguns instrumentos são, majoritariamente, escolhidos por meninos (bateria, violão, guitarra elétrica, bateria etc.), outros são preferidos por meninas (harpa, flauta, clarinete, pífaro).
As autoras propõem, desse modo, uma teoria para explicar fatores que influenciam na escolha de instrumentos por parte das crianças, tendo como base aspectos individuais (preferências pessoais por timbres, gêneros musicais e tipos de interação física com instrumentos), sociais (fatores culturais, religiosos, estereótipos ligados a certo instrumento ou gênero musical etc.) e próprios do instrumento (tamanho, afinação, aparência, custo etc.).
Por fim, no contexto de Chinês Ho (2003) também apresenta resultado de uma pesquisa que descreve preferências de instrumento, levando em consideração o gênero do(a) estudante, porém inova ao adicionar também as preferências de atividades e gêneros musicais, e o local no qual a pesquisa foi empreendida: Hong Kong, Shangai e Tapei. O artigo mostra que muitos estereótipos de gênero relacionados à música e questões de gênero no ocidente se repetem nesses países orientais, como por exemplo, que mulheres teriam maior aproveitamento nas aulas de Música e que instrumentos como flauta transversal e contrabaixo são altamente relacionados a um gênero (feminino e masculino, respectivamente).
Em outros termos, em diferentes culturas do mundo, existe essa associação entre gênero e instrumentos. Por que isso é prejudicial? Porque se sabe que essas percepções são culturalmente forjadas, logo, não há nada de essencialmente masculino na guitarra, nem essencialmente feminino na flauta. Desse modo, ninguém deveria ser impedido ou sofrer preconceitos por tocar um ou outro instrumento que não “combina” com o seu gênero.
Essas percepções sociais forjadas na sociedade são estimuladas pela mídia. De fato, não se vê todo o dia uma mulher guitarrista, ou contrabaixista, ou saxofonista, ou baterista na televisão, no cinema, no teatro musical etc. Inconscientemente, as meninas e mulheres acabam aprendendo que esses instrumentos não são para elas e, ao escolherem um instrumento para estudar, procuram algo que a mídia passa a impressão de ser mais “feminino”. Por essa questão, é importante falar sobre representatividade na educação musical. Em entrevista conduzida por Santiago (2021), uma professora de Música falou que as meninas a procuravam para tocar violão, por terem como figura de representatividade a cantora Paula Fernandes, que toca acompanhada por esse instrumento. Se houvesse mais mulheres tocando instrumentos “masculinos” na mídia, as meninas e mulheres poderiam se sentir mais à vontade para estudar outros instrumentos.
Muitas vezes, esses estigmas são reproduzidos em aulas de Música, onde meninas são estimuladas a cantarem certos instrumentos que as ajudam a reforçar as suas feminidades, enquanto os meninos também são estimulados a estudar um instrumento que reforçaria a identidade de gênero masculina (ALMQVIST; HENTSCHEL, 2019).
De fato, o gênero influencia nas escolhas musicais, embora não devesse. Ainda sobre as entrevistas conduzidas por Santiago (2021), uma professora trans dizia que, antes de assumir essa identidade de gênero, escolheu estudar guitarra por, entre outros motivos, esse instrumento a ajudar a fortalecer a imagem masculina que ela queria passar para, assim, evitar preconceitos.
Questiona-se quantas meninas gostariam de tocar um certo instrumento, mas não o fazem, por acharem que se trata de um instrumento “de menino”! Quantos meninos também não sofrem o mesmo, querendo tocar um instrumento “de menina” sem poder! Em quantas(os) mais não sofrem estigmas por desafiarem essa lógica e tocarem um instrumento que “não combina” com o seu gênero? Quem não já ouviu o estigma de que todo pianista homem é gay (mas qual seria o problema se assim fosse)? E que mulheres não conseguem ter força no diafragma para tocar uma tuba (quem disse?)? Essas são só algumas amostras de como o pensamento de que existem instrumentos masculinos e femininos na sua cultura ocidental e urbana é nocivo e potente para produzir preconceitos e discriminações que não são meras brincadeiras, mas sim discursos violentos e excludentes, que precisam ser desconstruídos por meio de uma educação musical multicultural e decolonial.
Considerações finais: como poderia ser?
Na perspectiva de que a percepção equivocada de que existem instrumentos “de menina” e “de menino” pode (re)produzir diferentes estereótipos de gênero e sexualidade, o ideal é que a educação musical, sobretudo aquela que ocorre em escolas regulares, desconstrua essa ideia.
Para tal, a(o) docente poderia apresentar instrumentos diversos, possibilitando que todas(os) os toquem, repreendendo qualquer comentário que relacione gênero e escolhas de instrumentos.
Também é muito viável que a(o) docente mostre vídeo de mulheres e meninas tocando baixo, bateria, saxofone etc., bem como vídeos de homens e meninos tocando violino, harpa, flauta etc. Isso pode possibilitar que elas(es) percebam que não há nada de errado em um homem/menino ou uma mulher/menina tocar certo instrumento.
Junto a estudantes maiores, poderia também haver debates e rodas de conversas sobre como elas(es) percebem essa questão do gênero influenciando não somente na escolha dos instrumentos, mas também na predileção de gêneros musicais e nas funções musicais que homens e mulheres poderiam seguir. Esse tipo de troca seria muito relevante e necessária, pois poderia contribuir para que elas(es) revissem os seus possíveis preconceitos e refletissem sobre como a Música também pode reproduzir comportamentos nocivos.
Referências
ALMQVIST, Cecilia Ferm; HENTSCHEL; Linn. The (female) situated musical body: aspects of caring”. Per Musi, n. 39, Music and Gender: 1-16, 2019.
HALLAM, Susan; ROGERS, Lynne; CREECH. Gender differences in musical instrument choice. International Journal of Music Education Copyright © 2008 International Society for Music Education Vol 26(1) 7–19, 2008
HO, Wai-chung. Gender Differences in Instrumental Learning, Preferences for Musical Activities and Musical Genres: A Comparative Study on Hong Kong, Shanghai and Taipei. Research Studies in Music Education, Number 20, 2003.
KELLY, Steve N.; VANWEELDEN, Kimberly. Gender associations with world music instruments by secondary school music students from the USA. International Journal of Music Education, vol. 32(4) 478 –486, 2014
LOURO, Guaracira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 13. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
SANTIAGO, Renan Santiago. Música(s) no plural!: o processo de planejamento, implementação e avaliação de um currículo multiculturalmente orientado Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021.