Um portal de aprendizagem de Música, que desafia preconceitos e discriminações.
PARA QUE VOCÊ TRACE SEUS PRÓPRIOS CAMINHOS
Música(s), no plural! O nome desse portal expressa, primeiramente, que a Música se expressa de diversas formas, ou melhor, que existem diferentes tipos de música, e nenhuma delas é melhor, elas apenas se apresentam em contextos diferentes.
Em segundo lugar, esse nome também denota que tais músicas se fazem ouvir em um contexto de pluralidade. Em outras palavras, não apenas a Música, mas o mundo em si é plural e multifacetado.
Como o ensino de Música pode se constituir, respeitando as diferenças musicais e a própria pluralidade do mundo, das(os) docentes e das(os) estudantes? Como a educação musical pode se posicionar no combate aos preconceitos e discriminações sem, contudo, desprezar o ensino de conteúdos musicais? Ajudar no entendimento dessas questões é o objetivo desse portal.
Contudo, sabe-se que um único portal não dá conta de toda pluralidade cultural do mundo, quiçá do Brasil. Nesse sentido, tão importante quanto o conteúdo aqui apresentado é a forma no qual ele foi produzido: por meio do diálogo e da interação.
Isso significa que o que está disponibilizado aqui foi obtido conversando com pessoas que possuem saberes musicais plurais, como indígenas, candomblecistas, mulheres etc.
Nesse sentido, o espaço analisado ficou restrito ao Rio de Janeiro, por ser o local no qual o autor do portal pôde realizar tais interações, mas isso não significa que você, cara(o) visitante, precisa ficar presa(o) a esse espaço.
Pelo contrário, esse portal lhe convida a fazer as suas próprias interações, ter seus próprios diálogos e aprendizados plurais, traçar seus próprios percursos, com quem estiver ao alcance e disponível para lhe fazer companhia nessa caminhada em direção à equidade e à justiça curricular :)
O vídeo abaixo traz mais informações sobre o Portal além de mostrar como ele pode ser usado:
Educação Musical e diferenças culturais
"Necessitamos de um currículo heterogêneo, porque o nosso alunado assim o é" (ARÓSTEGUI, 2011, p. 25).
O mundo é um lugar plural. As pessoas têm diferentes raças, etnias, gêneros, origens, saberes, religiões...tanta coisa! Somos todas(os) humanas(os), mas somos, ao mesmo tempo, tão diferentes!
As diferenças, em si, são positivas, é algo a ser celebrado. O problema a ser combatido são as desigualdades que vem atreladas às diferenças. Isso porque, de tão diferentes que somos, até o poder circula por nossas mãos de forma diferentes. Uns têm tanto, enquanto outros, tão pouco. Em geral, grupos sociais que têm mais poder tendem a dominar e oprimir outros grupos. Muitas vezes, essas elites impõem a sua cultura para outros, como se os seus saberes fossem superiores aos demais.
Na Música, isso não ocorre de forma diferente. Algumas músicas são muito valorizadas, como se fossem superiores, enquanto outras são apagadas e esquecidas. Por exemplo, a música "clássica" europeia é vista como superior e mais importante do que a música africana ou a música dos povos indígenas.
Semelhantemente, questões relacionadas à raça, ao gênero, à etnia, à sexualidade e à religiosidade também afetam as dinâmicas do ensino de Música. Sabe-se que pessoas negras são mais bem aceita em certas formações musicais do que outras (VANDWEELDEN; McGEE, 2007). Semelhantemente, meninas e mulheres podem sofrer preconceitos ao, por exemplo, escolherem estudar um instrumento "masculino" (ALMQVIST; HENTSCHEL, 2019). As musicalidades afro-brasileira e indígena, apesar da Lei 11.645/2008, que impõe estes conteúdos como obrigatórios, ainda encontram pouco espaço nos currículos de Música (SANTIAGO; IVENICKI, 2017). Não obstante, pessoas LGBT+ também sofrem preconceito nas escolas, inclusive, em aulas de Música (PALKKI; CALDWELL, 2018). Por fim, percebe-se que a cultura e musicalidade afro-brasileira, de forma geral, não são bem-aceitas em aulas de Música (SOUZA, 2015).
Nesse sentido, uma educação musical multicultural irá buscar 1) repensar as relações de poder que são criadas e/ou reproduzidas em aulas de Música; 2) valorizar todos os gêneros musicais, principalmente aqueles produzidos por identidades subalternas; 3) combater todos os tipos de preconceitos e discriminações, bem como buscar alternativas para evitá-los, de forma antecipada; isso tudo sem desprezar o ensino de conteúdos musicais.
Espera-se que o presente portal ajude nesse sentido!
Referências
ALMQVIST, Cecilia Ferm; HENTSCHEL; Linn. The (female) situated musical body: aspects of caring”. Per Musi, n. 39, Music and Gender: 1-16, 2019.
ARÓSTEGUI, José Luis. Por un currículo contrahegemónico: de la educación musical a la música educativa. Revista da ABEM, Londrina, v.19, n.25, 9-29 jan.jun 2011
PALKKI, J., CALDWELL, P. “We are often invisible”: A survey on safe space for LGBTQ students in secondary school choral programs. Research Studies in Music Education, 40(1), 28–49, 2018.
SANTIAGO, Renan; IVENICKI, Ana. Diversidade musical e formação de professores(as): qual música forma o(a) professor(a) de música? Rev. FAEEBA – Ed. e Contemp., Salvador, v. 26, n. 48, p. 187-204, jan./abr. 2017
SOUZA, Rafael Ferreira de. "Macumba é coisa do demônio, tio!": Discutindo relações de preconceito da aula de Música. Revista Interinstitucional Artes de Educar. Rio de Janeiro, V. 1 N. 2 – pp. 263-276, jun - set 2015
VANDWEELDEN, Kimberly; McGEE, Isaiah R. The influence of music style and conductor race on perceptions of ensemble and conductor performance. International Journal of Music Education Copyright © 2007 International Society for Music Education Vol 25(1) 7–19, 2007
Obs.: Este portal foi produzido no âmbito do Mestrado Acadêmico em Ensino das Práticas Musicais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (PROEMUS - UNIRIO) por Renan Santiago de Sousa, sob orientação do professor Glauber Resende.