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Tecnologias digitais como eixo central em aulas de Música

 

Renan Santiago

 

Considerações Iniciais

 

O desenvolvimento da tecnologia no cenário mundial é um fato inquestionável e facilmente visualizável. Nesse sentido, como as escolas, universidades e outras instituições educativas estão situadas dentro da sociedade, é normal que elas se adaptem às inovações tecnológicas. De fato, diferentes trabalhos discorrem sobre as relações entre a educação e as inovações tecnológicas (e.g. CONTE; MARTINI, 2015; HABOWSKY et al., 2019; SILVA; TEIXEIRA, 2020).

Dentro desse contexto citado, o presente texto, escrito no formato de ensaio teórico, destaca a Música que, além de prática social, parte integrante da cultura e uma linguagem artística, também é um componente curricular que se apresenta como disciplina escolar em muitos municípios do Brasil (FIGUEIREDO; MEURER, 2016). Assim sendo, cabe ao presente trabalho refletir sobre como professoras(es) da educação básica podem utilizar as tecnologias digitais em aulas de Música, bem como sugerir um modelo de curso para tal.

Além da questão do desenvolvimento das tecnologias digitais e da iminência de utilizá-las no contexto da educação básica em aulas de Música, justifica-se a feitura do presente texto pelo fato de recentes provas para concursos para professor de Música da Educação Básica e do Ensino Superior estarem cobrando que a(o) candidata(o) tenha conhecimento desses conteúdos[1], contudo, os cursos de Licenciatura em Música ainda pouco abordam esse assunto, o que corrobora para que as(os) futuras(os) docentes não sejam devidamente capacitadas(os) para lidar com esse tema, seja durante concursos e processos seletivos ou  mesmo durante a sua prática docente em sala de aula.

Dentre as diferentes etapas e modalidades da educação básica na quais tal empreitada poderia ser realizada, será escolhido o  ensino médio, pois, nessa etapa, as(os) adolescentes, em geral, não somente já estão familiarizados com as tecnologias digitais, como também já incorporam as tecnologias como algo pertencente às suas identidades: as(os) jovens contemporâneos estão intrinsecamente conectadas(os) às tecnologias (LUCENA; BUENO, 2016). Nesse contexto, indica-se que jovens do ensino médio regular da educação básica serão um bom público para a presente proposta, mas, de forma alguma está se argumentando que outros públicos também não possam se beneficiar do que aqui está sendo exposto, pelo contrário, aponta-se que com as devidas adaptações as sugestões aqui presentes também podem ser direcionadas para o ensino fundamental regular, para a Educação de Jovens e Adultos, formação de professoras(es) de Música etc.

Vale ressaltar que as atividades aqui propostas considerarão que as escolas regulares, principalmente as da rede pública, possuem poucos recursos e, dificilmente, possuem computadores de última geração. Logo, serão abordados programas e ferramentas gratuitos produzidos para Windows ou Android.

 

Recursos necessários

 

É necessário, primeiramente, que a escola tenha acesso à internet via Wi-Fi. Caso haja laboratório de informática na instituição, o mesmo poderá ser utilizado, mas, em caso contrário, seria interessante que haja pelo menos um computador e um projetor, para que a(o) docente possa transmitir a sua tela para o restante da turma.

Semelhantemente, é imprescindível que haja uma caixa de som para que o restante da turma ouça o que está se passando no PC da(o) docente. Por fim, na impossibilidade das aulas se darem em um laboratório de informática, é completamente possível que as(os) estudantes usem os seus próprios SmartPhones nas aulas.

Nesse contexto, é importante problematizar, no contexto carioca, a Lei n° 4.734/2008, que proíbe o uso do telefone celular em salas de aula do ensino fundamental ao superior. Essa Lei, possivelmente, foi criada com o intuito de diminuir as distrações e melhorar o desempenho das(os) estudantes, contudo, desconsidera totalmente as potencialidades do uso das tecnologias na educação básica.

A premissa principal do presente texto é, justamente, mostrar que a educação musical escolar pode se beneficiar das tecnologias e o celular é um equipamento acessível a maioria das(os) estudantes. Nesse sentido, não se concorda com o texto da citada Lei.

 

Conteúdos sugeridos

 

A intenção é sugerir conteúdos típicos da disciplina de Música para o ensino médio. Como o atual dispositivo curricular oficial vigente, a saber, a Base Nacional Comum Curricular, não aborda a disciplina de Música no Ensino Médio, os conteúdos que serão listados provêm da experiência docente do autor do texto.

 As tecnologias digitais não seriam um conteúdo em si, mas estariam presentes no processo de ensino e aprendizagem no momento da transposição didática, ou seja, na forma pela qual tais conteúdos são ensinados (PAGLIOCHI et al., 2016).

Assim sendo, para disciplina de Música no ensino médio, não se prescreve, mas se sugere que, em um ano letivo, os seguintes conteúdos sejam abordados (não necessariamente na ordem aqui listada):

 

  • Som: fenômeno físico, biológico e musical;

  • Tipos de som de acordo com as fontes sonoras que a produzem;

  • Classificação dos instrumentos musicais (percussão, sopros e cordas);

  • Propriedades do som (intensidade, duração, altura e timbre);

  • Pulsação, unidade de tempo (semínima) e divisão binária (colcheia e semicolcheia);

  • Pauta, leitura e escrita na clave de sol, com sinais de som e silêncio;

  • Música brasileira: História, repertório e prática musical;

  • Criação de arranjos  e composições simples.

 

Transposição didática com as tecnologias como eixo central

 

Os conteúdos supracitados podem ser ensinados por meio das tecnologias digitais, utilizando os recursos também já apresentados. Cada um dos tópicos será pormenorizado abaixo.

 

Som: fenômeno físico, biológico e musical

 

O som é a unidade básica do estudo da Música (SCHAFER, 1991), logo, entender mais sobre como ele se apresenta enquanto fenômeno físico, biológico e musical é um ponto de partida interessante e oportuno para aulas de Música. No que se refere ao som como fenômeno físico, quer-se dizer que o som é formado pela vibração do ar que produz ondas sonoras que se dissipam por algum meio (usualmente, o ar) chegando, assim, aos nossos corpos ou a qualquer outro receptor. Contudo, não basta que o som seja produzido e transmitido: é também necessário que ele alcance o nosso aparelho auditivo e que ele esteja minimamente saudável para compreender e significar as ondas sonoras que o alcançaram.

Nesse sentido, o som também se torna um fenômeno biológico que, de forma simplória, funciona da seguinte forma: as ondas sonoras movimentam o tímpano, que está conectado a três ossículos que também se movem, movimentando também o líquido do ouvido interno do labirinto. A movimentação desse líquido, por sua vez, movimenta as minúsculas células da cóclea, que convertem esse movimento em sinais químicos para os nervos auditivos, que os envia para uma parte específica do cérebro por meio de impulsos elétricos, que os interpreta como sons.

Uma vez percebido pelo nosso sistema auditivo e nervoso, os sons podem ser usados para diferentes fins, entre eles, estéticos. Nesse sentido, surge a música, justamente, quando o ser humano organiza intencionalmente os sons a fim de expressar sentimentos e transmitir ideias (SCHAFER, 1991).

Esse conteúdo pode ser ensinado ou minimamente reforçado por meio de recursos digitais. Na contemporaneidade, existe um vasto material audiovisual disponível em sites de compartilhamento de vídeos, como o YouTube. Por meio de um projetor ou mesmo utilizando os celulares das(os) acadêmicas(os), pode-se recorrer a diferentes vídeos que abordam a questão da produção e da propagação do som.

Um vídeo[2] muito interessante é a experiência da placa de Chladni, na qual uma quantidade de sal é disposta em uma placa fina de metal que é colocada em contato com diferentes frequências sonoras, o que faz com que o sal se disponha em diferentes desenhos, mostrando concretamente as diferentes formas nas quais as ondas sonoras se apresentam. Caso haja interesse da turma, a experiência pode ser facilmente replicada em sala de aula, visto que para tal só é necessário utilizar uma caixa de som, uma placa de metal, e sal ou farinha. O áudio das frequências absolutas pode ser obtido em https://www.szynalski.com/tone-generator/.

Uma vez ensinado e entendido que o som se manifesta em ondas, muitos outros conteúdos podem ser ensinados, por exemplo, 1) que essas ondas têm uma frequência de vibração que pode ser expressada em Hertz (Hz), 2) que quanto maior a frequência da onda, mais agudo será o som; 3) que o ouvido humano ouve frequências entre 20 e 20.000 Hz; 4) que outros animais possuem uma extensão diferente, logo, podem ouvir (e emitir) sons que não podemos; 5) não se deve confundir Hertz com Decibéis: o primeiro, conforme já dito, está relacionado à frequência da onda sonora, enquanto o segundo expressa quantitativamente a intensidade do som emitido.

Nesse contexto, podem ser apresentados diferentes aplicativos para celular que prometem mensurar a frequência sonora. Um exemplo é o Audio Frequency Counter[3], que é gratuito e disponível para Android. Pode ser feita também a comparação desse aplicativo com a função do afinador digital, que também indica uma frequência, mas a “converte” diretamente para uma nota musical. 

Há também o Decibelímetro[4], aplicativo que faz algo semelhante no que se refere à medição de decibéis. A(o) docente pode pedir para que as(os) estudantes façam uma excursão pela escola, procurando os locais que são mais “barulhentos”. Sem dúvida, isso ajudará na compreensão do conteúdo e proporcionará uma atividade interessante e útil para a comunidade acadêmica.

No que ser refere ao som enquanto fenômeno biológico, indica-se que as questões relacionadas ao som enquanto fenômeno acústico podem (e devem) ser relacionadas às questões pertinentes à saúde e cuidados com os nossos aparelhos auditivos (SCHAFER, 1991). As(os) estudantes, ao compreenderem como funciona o aparelho auditivo, após estarem de posse do aplicativo Decibelímetro e  após compreenderem que o nível de ruído indicado pela Organização Mundial da Saúde em um ambiente salubre é de 50dB e, nunca maior do que 80 dB[5], poderão se resguardar de tais ambiente e adotar hábitos saudáveis, como, por exemplo, nunca ouvir música com fones de ouvido no volume máximo.

Finalmente, sobre o som enquanto fenômeno estético, tal conteúdo será mais bem abordado em outros tópicos, como o que vem a seguir.

 

Tipos de som de acordo com as fontes sonoras que a produzem:

 

Os sons podem ser classificados mediante o tipo de fonte sonoras que as produzem. Esse entendimento é muito importante para que a(o) acadêmica(o) perceba que pode ser utilizado qualquer tipo de som para se compor uma música, que é um dos pressupostos básicos da música de vanguarda e dos métodos de educação musical da segunda geração (FONTERRADA, 2005).

Nesse contexto, os sons podem ser tipificados como sons com o corpo, produzidos naturalmente, ou via percussão corporal; sons da natureza, como sons dos rios, da chuva, do vento etc.; sons dos animais, produzidos pela vocalização ou movimentação dos mesmos; sons das máquinas, como carros, furadeiras, ventiladores, entre outros dispositivos inventados pelo ser humano; entre outras fontes sonoras.

A ideia não é esgotar o assunto na pura classificação, mas utilizar os diferentes tipos de som para se compor música, isso é, usá-los de forma estética. Inicialmente, é necessário mostrar às(aos) estudantes que, de fato, é possível fazer música com sons de objetos, sons do corpo sons de animais etc. e, para tal, a apreciação de peças do compositor John Cage, como 4’33’’, Water Walking e Imaginare Landscape no 1, no YouTube, seriam muito bem-vindas.

Feito isso, a(o) docente poderia propor que turma composse uma música, tais como as do John Cage, mas, para tal seria necessário produzir e/ou “coletar”, isto é, fazer e gravar os sons que seriam utilizados na obra. Tais sons poderiam ser gravados no próprio celular das(os) acadêmicas(os) e, posteriormente, reunidas e mixadas, a fim de fazer uma única música. A mixagem pode ser feita com o programa VSDC[6], programa que também serve para editar vídeos.

É importante que nem a produção, coleta ou mixagem dos sons seja feita de forma descompromissada, laissez-faire, mas que tenha um propósito, ou seja, a música deve comunicar algo, expressar um sentimento. Só assim, a reunião intencional dos sons será música (SCHAFER, 1991).

 

Classificação dos instrumentos musicais (percussão, sopros e cordas)

 

Dentro as diferentes fontes sonoras, destaca-se no meio musical os instrumentos musicais, isto é, objetos criados exclusivamente para se produzir sons estéticos, principalmente, as notas musicais. Forcar com as(os) acadêmicas(os) sobre a diversidade de instrumentos musicais existentes é, sem dúvida, um conteúdo interessante para ser ensinado em aulas de Música e essa apresentação pode ser feita concomitantemente quando se explica de que forma tais instrumentos musicais são classificados.

A organologia, isto é, o campo da Música que classifica os instrumentos musicais, entre diferentes formas, propõe a classificação dos instrumentos musicais segundo a forma pela qual eles produzem sons. Nesse sentido, pode-se classificar instrumentos como: instrumentos de percussão, instrumentos de cordas e instrumentos de sopro.

É interessante ressaltar que existe um número imenso de aplicativos que simula instrumentos musicais de percussão, sopros e cordas variados[7]. Outra opção é utilizar o sítio Virtual Music Instruments[8]. Seria bom que as(os) estudantes tivessem contato real com esses instrumentos, mas caso não haja a possibilidade, esses aplicativos podem proporcionar certa experiência.

Contudo, apesar desses aplicativos proporcionarem uma manipulação de instrumentos musicais, eles não oferecem uma experiência estética muito aprofundada, que pode ser proporcionada por vídeos de apresentações musicais disponíveis no YouTube.

 

Propriedades do som (intensidade, duração, altura e timbre)

 

Ainda discorrendo sobre o som, torna-se relevante apresentar às(aos) acadêmicas(os) que cada som se distingue por suas propriedades, no sentido estrito da palavra: algo que é próprio de alguém.

As diferentes propriedades do som são a intensidade, a altura, a duração e o timbre; sendo que que a intensidade é a propriedade de um som poder ser mais forte ou suave; a altura é a propriedade de um som poder ser mais agudo ou grave; a duração é a propriedade de um som poder ser mais longo ou curto e, por fim, o timbre é a qualidade e a quantidade dos harmônicos que compõem uma onda sonora, possibilitando que sons de mesma altura, mas de fontes sonoras diferentes, sejam diferenciáveis.

Recorda-se que, indiretamente, a intensidade e a altura não somente foram abordadas nesse texto, mas também foram mensurados por meio de aplicativos que mostram a frequência da onda e a intensidade do som: o frequencímetro e o decibelímetro. Nesse momento, esses conhecimentos podem ser ressignificados e abordados como altura e intensidade, e representados com os sinais usuais da grafia musical (e não por Hz ou dB).

No que se refere à duração, pouco sobra para as tecnologias digitais se não medir quanto dura certo som por meio do cronômetro do celular. O(a) docente pode até sugerir um concurso de quem consegue fazer a nota mais longa antes de perder o fôlego com a turma.

Já o timbre é bem interessante de ser abordado por meio das tecnologias digitais. Por meio do programa Audacity[9] pode-se ver na prática como um som com a mesma altura possui uma roupagem de harmônicos diferentes, que, por conseguinte, gerará um som diferente. Tendo como base essa possibilidade de visualização do espectro da onda, o conceito de timbre pode ser mais bem ensinado e entendido.

 

Pulsação, unidade de tempo (semínima) e divisão binária. Pauta, leitura e escrita na clave de sol, com sinais de som e silêncio

 

Com o conhecimento até aqui já abordado (caso a(o) docente o siga na ordem em que foi listado), já é possível apresentar os fundamentos da leitura e da escrita musical. A ideia por detrás de ensinar tal conteúdo é fornecer mais subsídios para que as(os) acadêmicas(os) possam se expressar musicalmente, visto que a leitura e escrita musical acrescentam possibilidades para a composição musical.

Primeiramente, é necessário ensinar o conceito de pulsação, isto é, a frequência regular de batidas que regem o andamento de uma música. Feito isso, pode ser ensinado que cada batida da pulsação é uma unidade de tempo e que ela pode ser representada graficamente utilizando a semínima. A partir desse entendimento, por meio da multiplicação, divisão e soma dessa unidade emergirão, progressivamente, todas as outras figuras musicais e, pela omissão do som (silêncio) dessas figuras, se ensinará as figuras de silêncio. Isso deve ser feito de pouco a pouco, zelando para o pleno entendimento da questão por parte das(os) acadêmicos, priorizando a leitura rítmica.

Quando a parte rítmica da notação musical for ensinada e entendida, poder-se-á ser ensinado a parte melódica. Nesse sentido, é interessante apresentar a lógica de como as notas estão dispostas na pauta (em clave de sol) e como se organiza uma melodia na partitura, utilizando as figuras rítmicas. No que se refere à ordem em que as notas devem ser ensinadas se recomenda que se inicie pela terça menor (Mi-Sol), progredindo para a pentatônica maior (Do-Re-Mi-Sol-La), iniciando-a do sexto grau para chegar à pentatônica menor (La-Do-Re-Mi-Sol), para só depois chegar à escala diatônica maior (Do-Re-Mi-Fa-Sol-La-Si-Do). Isso deve ser feito com bastante calma, e nunca em um único dia! É mais importante gastar vários dias de aulas fazendo com que as(os) acadêmicos aprendam e se expressem bem por meio da pentatônica do que fazê-las(os) aprender a escala maior diatônica “correndo”.

Há várias formas de se utilizar tecnologias digitais para se ensinar a leitura e a escrita musical, desde canais no YouTube[10] que são especializados em ensinar partitura, bem como sites e aplicativos que têm o mesmo fim.

O site https://www.musictheory.net/ é bastante completo nesse sentido, pois traz diferentes lições de teoria musical e até exercícios de percepção musical, embora esteja em inglês, que pode ser um empecilho para certas(os) estudantes o utilizarem. Já o site https://www.musicca.com/pt está em português e, além de diversos exercícios de teoria musical, também traz simuladores de instrumentos musicais.

Argumenta-se também que softwares de edição de partitura são potenciais ferramentas para se ensinar teoria musical, visto que eles possibilitam que a linguagem musical se torne mais concreta e “visualizável” para aquelas(es) que estão aprendendo. O que se quer dizer é que pode ser complexo, para um(a) estudante em fase inicial da sua aprendizagem de Música, decodificar a mensagem da partitura, ou seja, transformar – mental ou instrumentalmente - aqueles símbolos em sons.  Nesse sentido, editores de partitura são aliados não somente no ensino da teoria musical, mas também da formação do ouvido interno, do arranjo e da composição, essa última não no sentido de “jogar diferentes notas na partitura e ver no que vai dar”, mas sim como visualizar os programas de edição de partitura como um espaço de experimentação de ideias musicais.

Existe uma gama grande de opções de editores de partitura que podem ser utilizados nessa empreitada, como o Encore, o Sibelius, o GuitarPro etc., contudo, todos são pagos. Nesse contexto, recomenda-se o uso do MuseScore[11], que cumpre bem papel gratuitamente e é disponível para smartphones.

 

Criação de arranjos  e composições simples

 

A fim de desenvolver a criatividade das(os) estudantes, bem como ajudá-las(os) a colocar em prática o que aprenderam durante o ano letivo, sugere-se que a(o) docente estimule-as a fazer composições simples e arranjos. Para esse fim, os softwares de edição de partitura supracitados também são bastante úteis.

 

Música brasileira: História, repertório e prática musical

 

Por fim, o estudo da música brasileira é também um tópico relevantíssimo que possibilita aulas extremamente musicais, nas quais as(os) acadêmicas(os) poderão tocar e cantar. Embora ele esteja listado aqui, no final da lista, o recomendado é que esse conteúdo esteja presente durante todo o ano letivo.

É importante também relacionar tais gêneros com os gêneros musicais que elas(es) trazem das suas vivências extraescolares. O samba, por exemplo, todas(os) já conhecem...mas podem aprender mais sobre a história e mais repertório. O maculelê tem a batida do funk carioca que todas(os) também conhecem e muitas(os) apreciam. O baião e a quadrilha também são conhecidas das festas juninas, e a ciranda, que era só uma “cirandinha”, pode se tornar um grande dança de roda na qual as(os) estudantes representarão as ondas do mar com o corpo.

Contudo, quando dissertamos sobre músicas tradicionais muito relacionadas a uma certa identidade cultural, o ideal é não somente performar essas músicas com as(os) estudantes, mas também mostrar como essas músicas se dão em seus ambientes culturais de origem, a fim de se evitar produzir estereótipos (KANG, 2016). Sem as tecnologias digitais, seria necessário levar as(os) estudantes para rodas de samba, rodas de ciranda, rodas de maculelê etc., o que necessitaria de recursos financeiros e de uma logística que muito provavelmente não seriam factíveis, mas, por meio de vídeos do YouTube, por exemplo, seria completamente possível visualizar formas autênticas dessas musicalidades.

Também é possível, por meio de softwares de videoconferência, como o Zoom, o Google Meet, o TeamLink, o Skype, o Meets, entre outros, conversar com mestres do saber popular, isso é, mestres de samba, mestres cirandeiros, mestres de capoeira, entre outros musicistas que poderão adicionar bastante no saber dos gêneros musicais estudados. Trazer tais mestres para a sala de aula também é uma recomendação de Kang (2016) e esse trâmite pode ser facilitado por meio das tecnologias digitais.

 

Formas de avaliação centradas nas tecnologias digitais

 

Pode-se utilizar também as tecnologias digitais para se avaliar o processo de ensino e aprendizagem de Música. Argumenta-se que, fugindo de uma avaliação tradicional centrada em provas escritas, pode-se aferir o conhecimento que as(os) estudantes obtiveram das aulas sugerindo, por exemplo:

 

1) Gravar músicas

 

A(o) docente poderia solicitar que as(os) estudantes gravassem o áudio de alguma música, seja ela uma música de vanguarda, uma música brasileira ou uma composição delas(es). Para tal, poderiam usar o Audacity ou mesmo o gravador de seus celulares.

Seria também uma boa oportunidade para conversarem sobre tipos de microfones, a saber, microfones dinâmicos, condensadores e de fita[12]. Seria interessante que a(o) docente refletisse sobre qual seria o melhor tipo de microfone a ser utilizado para gravar tais músicas, assim, as(os) estudantes poderiam exercitar o raciocínio crítico ao invés de apenas decorar as diferentes características dos microfones. Mas se reconhece que, para tal, seria importante que a(o) professor(a) ou que a escola possuíssem diferentes tipos de microfones, o que nem sempre é factível.

Uma vez gravados os áudios das músicas, eles poderiam ser mixadas e masterizadas no Audacity e, a posteriori, o processo final pode ser disponibilizado em plataformas de streaming. Também é a oportunidade para falar sobre formatos de arquivos de áudio e vídeo, bem como apresentar o FormatFactory, que é um programa gratuito que faz conversão e compactação de arquivos.

 

2) Produzir clipes musicais;

 

Além da gravação do áudio, nada impede que, concomitantemente, as(os) estudantes criem um vídeo clipe para música. Poderia ser um vídeo real, gravado do celular retratando elas(es) mesmas(os) ou quaisquer outras paisagens, ou montagem de fotos, adaptação de outros vídeos, animações ou Stop Motions[13]. Uma vez produzidos, os clipes poderiam ser editados e unidos ao áudio outrora feito, utilizando para tal o programa VSDC.

 

3) Fazer jogos digitais para compor músicas e sonoplastias para eles

 

A área de jogos digitais é muito estimada pela juventude atual, se tornando, inclusive, uma rentável profissão. Nesse contexto, nada impede que a(o) professor(a) de Música explore a produção de games e a utilize para avaliar e motivar as(os) estudantes.

O site https://flowlab.io/ é muito positivo nesse sentido, pois permite a criação de jogos digitais sem a necessidade de usar códigos de programação e, além disso, ele permite que se faça o upload de áudios que comporão a música do jogo e seus efeitos sonoros. Nesse sentido, argumenta-se que muitas(os) estudantes ficarão estimulados em produzir as músicas que comporão o jogo que elas(es) mesmas(os) criarão! Contudo, infelizmente, o Flowlab está disponível somente em inglês.

 

4) Escrever blogs, sites ou páginas no Facebook

 

Outra possibilidade para dar termos práticos às músicas e vídeos que as(os) estudantes produzirão e usá-los para compôs blogs, sites ou páginas em redes sociais, como Facebook e Instagram. Nesse contexto, poderiam ser criadas páginas de temas variados, ao gosto das(os) estudantes.

Para blogs, sugere-se o site https://www.blogger.com/,  que pertence ao Google. Já sobre os sites, é possível criar um exemplar de forma fácil e intuitiva usando o wix.com.

 

5) Produzir uma WebRádio ou Podcasts

 

Por fim, todo o trabalho das(os) acadêmicas poderia ser disponibilizado em uma Web Rádio ou podcasts. Nesse sentido, além de músicas, elas(es) poderão também gravar e masterizar vinhetas, conversas, entrevistas etc.

Os programas da rádio e os Podcast podem ser transmitidos até mesmo pelo YouTube ou Twitch, sob o formato de lives, mas também há a possibilidade de se utilizar sites específicos e gratuitos, como o https://www.spreaker.com, o https://www.spotify.com/br/ ou o https://soundcloud.com/.

 

Considerações Finais

 

Tendo como base o exposto, espera-se defender a tese de que aulas de Música centradas na tecnologia são potentes para se ensinar conteúdos musicais, oferecem novas possibilidades para as(os) docentes e cativam as(os) estudantes, trazendo-as(os) para assuntos do seu cotidiano.

Contudo, essa centralidade pode trazer questões em relação à infraestrutura necessária para o seu empreendimento. Isso indica que nem sempre será possível realizar todas as atividades aqui propostas por falta de equipamentos, programas, aplicativo, acesso à internet etc. Nesse contexto, apesar das inúmeras possibilidades para se ensinar Música, as tecnologias musicais também possuem limitações que devem ser avaliadas pela(o) docente.

Também é relevante indicar que o uso da tecnologia possibilita acesso a instrumentos musicais e a musicistas de outras culturas, contudo, a experiência virtual não deve substituir a experiência real, caso ela seja possível. Ou seja, deve sempre dar preferência a instrumentos reais e ao contato direto com diferentes musicalidades.

Todavia, apesar das limitações, reforça-se que as possibilidades didáticas das tecnologias digitais são amplas e não devem ser ignorados por docentes de Música na educação básica.

 

Referências

 

CONTE, Elaine; MARTINI, Rosa Maria Filippozzi. As Tecnologias na Educação: uma questão somente técnica?. Educação & Realidade [online]. 2015, v. 40, n. 4 , pp. 1191-1207

 

FIGUEIREDO, Sérgio Luiz Ferreira de; MEUERER, Rafael Prim. Educação musical no currículo escolar: uma análise dos impactos da Lei n° 11.769/08. Opus, v. 22, n.2, p. 515-542, dez. 2016.

 

FONTERRADA, M. O. T. De tramas e fios: um ensaio sobre música e educação. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP; Rio de Janeiro: Funarte, 2008.

 

HABOWSKI, Adilson Cristiano; CONTE, Elaine; TREVISAN, Amarildo Luiz. Por uma cultura reconstrutiva dos sentidos das tecnologias na educação. Educação & Sociedade [online]. v. 40, 2019.

 

KANG, S. The History of Multicultural Music Education and Its Prospects: The Controversy of Music Universalism and Its Application. Update: Applications of Research in Music Education. 2016;34(2):21-28.

 

LUCENA, Tiago Franklin Rodrigues; BUENO, Glaukus. Geração cabeça-baixa: saúde e comportamento dos joens no uso das tecnologias móveis. IX Simpósio Nacional ABCiber - PUC São Paulo, dezembro de 2016. Anais... PUC São Paulo: São Paulo, 2016.

 

PAGLIOCHI, Jassica dos Santos; SILVA; Graziele Del Sent da; STADLER, João Paulo; BORGES, Aline Rocha. Investigação dos processos de transposição didática interna e externa do conteúdo: "Misturas" para o ensino médio. ACTIO : docência em ciências [recurso eletrônico]. – v. 1, n. 1, Set.-Dez, 2016

 

SCHAFER, Murray. O ouvido pensante. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1991. 

 

SILVA, Chayene Cristina Santos Carvalho da; TEIXEIRA, Cenidalva Miranda de Sousa Teixeita. O uso das tecnologias na educação: os desafios frente à pandemia da COVID-19. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.6, n.9, p.70070-70079, sep.2020

 

[1] Os mais recentes concursos, à época da escrita desse artigo, para professor de Música do Colégio de Aplicação da UFRJ, UFJF e UFF, cobravam conhecimentos sobre Música e Tecnologia.

[2] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=wvJAgrUBF4w&ab_channel=brusspup, acesso em 12/01/2022

[3] Download pode ser afetuado em https://play.google.com/store/apps/details?id=com.keuwl.audiofrequencycounter&hl=pt_BR&gl=US, acesso em 12/01/2022

[4] Download disponível em https://play.google.com/store/apps/details?id=com.gamebasic.decibel&hl=pt_BR&gl=US, acesso em 12/01/2022.

[5] Informação obtida em https://brasilescola.uol.com.br/saude/perigo-nos-decibeis.htm, acesso em 12/01/2022.

[6] Disponível para download em https://www.videosoftdev.com/pt, acesso em 12/01/2022.

[7] Disponíveis em https://play.google.com/store/apps/developer?id=Yuki+Yazilim&hl=en_US&gl=US, acesso em 12/01/2022.

[8] Disponível em https://www.virtualmusicalinstruments.com/piano, acesso em 13/01/2022.

[9] Disponível em https://www.audacityteam.org/, acesso em 12/12/2022.

[10] Por exemplo, o canal do professor Alan Gomes: https://www.youtube.com/c/AlanGomesprofessor/videos

[11] Disponível para download em https://musescore.org/pt-br, acesso em 13/01/2022.

[12] Mais informações sobre esses tipos de microfones podem ser obtidas aqui: https://fabiomazzeu.com/tipos-de-microfone/

[13] O seguinte aplicativo de celular é perfeito para criar vídeos no estilo Stop Motion: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.cateater.stopmotionstudio&hl=pt_BR&gl=US

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