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Viajando na batida: o funk como ponto de partida em aulas de Música

Renan Santiago

Introdução

 


 

Em geral, é observado que existe um gênero musical que é utilizado como uma espécie de "padrão norteador" no ensino de Música, que é a música erudita de tradição europeia (SANTIAGO; MONTI, 2018). Não se expressa com isso que outros estilos musicais não estão nos cursos e formação de professoras(es) de Música e em aulas e Música a educação básica, mas sim que a música erudita, sua linguagem e a sua história são usadas como estruturas de todos os processos de ensino de Música.

Contudo, estudos como Saether (2008) mostram que a música midiática juvenil é uma linguagem compartilhada pela grande maioria dos jovens em idade escolar de todo o mundo, independentemente de nacionalidade, gênero, raça ou religião, logo, é essa musicalidade que deveria ser a estrutura central dos processos de ensino e aprendizagem de Música. 

Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, é notório que o funk carioca é um ritmo conhecido por todas(os) as(os) estudantes e que agrada a maioria delas(es) e, de pouco em pouco, esse gênero musical tem se espalhado para o restante do país. Apesar de muitas críticas ao funk terem fundamento, concebe-se que parte dessas críticas se dá por tal ritmo ser a produção cultural de pessoas negras e moradoras de favela.

Contudo, o presente texto aponta que tal gênero musical tem potencialidade para 1) ensinar conceitos musicais diversos; 2) valorizar os conhecimentos extraescolares das(os) estudantes; 3) ampliar os horizontes culturais das(os) mesmas(os) e 4) conscientizar sobre os diferentes tipos de preconceitos e discriminações.​

Isso é possível porque o funk carioca é um gênero extremamente híbrido, que dialoga com diferentes culturas. Por meio do funk, pode-se ensinar, direta ou indiretamente, sobre o funk americano, o rap, o hip-hop, o FreeStyle, o Miami Bass, o blues, o jazz, o rock, o gospel, a música barroca europeia, a música tradicional egípcia,  o frevo, o kuduro angolano, a música de terreiro, entre outros estilos musicais. ​

"O forte teor de sexualidade, a objetização de mulheres e a promoção de criminalidade não caracterizam todos os funks, mas concorda-se que tais características negativas estão presentes em algumas letras desse gênero. Esse fato não deve ser não deve ser ignorado, mas sim abordado de forma crítica, levando as(os) estudantes a também analisarem criticamente aquilo que elas(es) consomem."​

Com base no explicitado, o presente texto busca literalmente, fazer os(as) estudantes viajarem pelo mundo e por diferentes culturas tendo como plano de fundo o funk carioca e não a música erudita europeia. Para tal, inicialmente, será contada a história do funk carioca e como ele se relaciona com outros gêneros musicais.

A história do funk carioca

 

O funk genuinamente carioca surge no início da década de 1990, quando, curiosamente, o autor desse texto – um carioca nascido na favela da Rocinha e criado na favela da Vila Aliança - nasceu. Nesse sentido, narra-se aqui o depoimento de quem viu de perto, in loco, o desenvolvimento desse estilo musical. De um ponto de vista decolonial, no qual se valoriza os discursos de quem “viveu a coisa na pele” e as (auto)biografias, esse texto é bem-vindo, mas assume-se que esse texto pode apresentar imprecisões, pois à época quando o desenvolvimento do funk foi observado, não se pensou que, um dia, com esses fatos, se montaria um texto. Nesse sentido, caso queira algo mais acadêmico, leia Faria (2018) e Vianna (1987), cujos alguns argumentos não coincidem com os que eu aqui trago.

Nas décadas de 1970 e 1980 o funk americano, cujas figuras mais representativas são James Brown e Marvin Gaye eram tocados em diferentes matinês e festas cariocas, que ocorriam, inclusive, em comunidades. Com o passar das décadas, esse estilo perdeu popularidade e passou a ser substituído por outros gêneros negros estadunidenses que, embora tivessem outros nomes, também eram chamados por aqui de funks.

Se argumenta com isso que antes do funk se tornar o que ele o é na segunda década do século XXI, o que se chamava de funk na década de 1990 era basicamente músicas negras das periferias estadunidenses de dois estilos musicais: o Miami Bass e o FreeStyle. Isso é um ponto a ser frisado: o funk carioca não parece herdar nada do funk estadunidense, a não ser o nome e, claro, a influência explícita na música I feel vinho, do Bonde do Vinho.

O Miami Bass, como o nome indica, surgiu em Miami e, juntamente com a batida inspiradas no Rap e Hip-Hop estadunidenses, havia também graves interessantes e característicos. Vale ressaltar que a batida característica era a mesma utilizada nos primeiros funks genuinamente brasileiros, como será argumentado mais à frente. Alguns exemplos de “Miami Basses” que fizeram sucesso na década de 1980 e 1990 no Rio de Janeiro: “Raid with a gauge – Bass patrol” e “Smurf Rock– Gigolo Tony”.

Já o FreeStyle tinha uma batida mais fluida, animada e propensa à dança. Possivelmente, a tradução literal “estilo livre” se refere às improvisações de dança que eram estimuladas por esse estilo musical. O FreeSyle também se diferencia do Miami Bass por ter linhas melódicas que contribuíam com a construção da identidade desse gênero musical. Não à toa, o FreeStyle é mais conhecido no Rio de Janeiro como Funk Melody. Alguns exemplos de “FreeStyles” que fizeram sucesso na década de 1980 e 1990 no Rio de Janeiro: “So, tell me, tell me – Shavonne”, “Falling Slowly – Shana”, “Spring love – Steve B”,  “Alone at last  - Trinere” e “Now and Forever – Giuseppe D.’s Dance”. 

Esses dois estilos musicais eram tocados em rádios, nas residências e, em especial, naquilo que se chamava de “bailes charme”, cujo  principal se dava debaixo do viaduto de Madureira, bairro da periferia Carioca e também berço de outros redutos de música negra, como escolas de Samba, o Jongo da Serrinha, além de vários terreiros de Candomblé.

 

 

 

Com o passar do tempo, o que até então era chamado de Funk Melody tornou-se um sucesso, se espalhando por todas as comunidades nos bailes (também chamados de festivais) onde o Miami Bass e o FreeStyle eram tocados. Essa, provavelmente, é a origem daquilo que hoje é conhecido como bailes funks, cuja maioria, hoje em dia, está sob o domínio do tráfico de drogas.

Observa-se que, bem no início, as músicas eram todas em inglês. O carioca nomeava algumas músicas com aquilo que a canção em inglês parecia dizer em português. Por exemplo, do clássico de Ring my Phone, de Shantell & Dwayane, pegou-se o verso do refrão, ring my phone operator, ouviu-se “cheira pó maconheiro”. Essa música tornou-se conhecida como o Melô do Maconheiro. Já da música It’s automatic, ouviu-se “É o tchotchomerri”, sem significado etimológico, mas com muito bom humor.

 Com o passar do tempo, os primeiros funkeiros, talvez estimulados pelas “traduções” feitas pelo povo a partir daquilo que as músicas pareciam dizer, começaram a fazer paródias dessas músicas em português. É importante ressaltar que não era uma tradução do que se era cantado em inglês, mas sim a implementação de uma letra em português em cima da melodia original da Música. Um exemplo é a música Tremidinha, do MC Rock Bolado que é uma paródia da música Dreamin’ do grupo Will to Power. Não se ignora que os funkeiros primordiais também faziam paródias de outros gêneros musicais, por exemplo, a música Rap das Lembranças, dos MCs Nélio e Espiga é uma paródia da canção Girls just wanna have fun, de Cyndi Lauper.

Uma paródia merece atenção. É o Rap do Faz Quem Quer, dos MCs Danda e Tafarel, que diz: “eu não sei porque tanta contradição, a galera vem pro baile arrumar confusão. Me escute meu amigo, preste atenção:  tem milhares de gatinhas no meio do salão. Não arrume confusão! Não, não vale a pena não, irmão pare com isso!”. Trata-se de uma paródia da música Spring Love, um FreeStyle de Steve B.

 Na canção abrasileirada, os MCs citados criticam a violência de alguns bailes, contudo, muito provavelmente, falam especificadamente dos chamados bailes de corredor, no qual havia brigas generalizadas entre dois grupos: o Lado A e o Lado B (também citados na canção Lado B Lado A, do grupo de rock O Rappa).

Por mais que isso beire o absurdo, existiam regras nesse tumulto, por exemplo, não era permitido bater em alguém caído no chão, contudo, os bailes de corredor chamaram a atenção da mídia e a violência nos bailes passou a ser algo que fazia o restante da sociedade criar estereótipos negativos em relação ao funk.

A mensagem de Danda e Tafarel é sutil, mas perceptível: “temos que unir nossas forças no lado bom, para ouvir nossas vozes cantando no mesmo tom”. Nem lado A, nem lado B, somente o lado bom. Os bailes de corredor estavam obscurecendo o funk enquanto um meio de expressão das vozes dos moradores de favela e criando mais preconceitos contra o funk e os funkeiros. Hoje em dia, bailes de corredor não existem mais.

Outra paródia que é um hino funkeiro é o Rap do Festival, também de Danda e Tafarel. No caso, trata-se de uma paródia de FreeStyle de Sucesso: Bleeding Heart – Bardeaux. Tem-se nesse clássico uma citação direta de Será, imortalizado pelo rock brasiliense do Legião Urbana: “Brigar pra quê, se é sem querer. Quem é que vai me proteger?”. Mais uma vez, os funkeiros reclamam das confusões em bailes funks e, se a citação direta não é suficiente, adicionam: "Uma tristeza dominou meu coração, vendo a massa funkeira numa confusão. O amor é importante no seu coração e a alegria dentro e fora do salão. Seja sincero, honesto e muito fiel: Esse é o recado do Danda e do Taffarel".

Ainda nesse contexto de paródias, surgiram as primeiras músicas originais. Caso haja a necessidade de se posicionar um marco inicial, pode-se dizer que é aí que o verdadeiro funk genuinamente brasileiro nasce. Apesar de totalmente nacionais, não pode-se negar a influência estadunidense nessas músicas, que eram cantadas por MCs (Master of Ceremonies), tocadas por DJs (Disk Jockeys) e chamadas de Rap. Algo curioso nesse ponto: em geral, os nomes das músicas eram sempre “Rap de alguma coisa”, por exemplo, Rap da Felicidade (Cidinho e Doca), Rap do Festival (MC Danda e MC Tafarel), Rap das Armas (Cidinho e Doca), Rap do Pintinho (SD Boyz), Rap do Solitário (MC Marcinho), Rap da Xuxa (Cidinho e Doca), Rap do Silva (Bob Rum), Rap da Estrada da Posse (Coiote e Rapozão), Rap do Salgueiro (Claudinho e Bochecha), Rap da Cidade de Deus (Cidinho e Doca), Rap do Trabalhador (MC Magalhães), Rap do Cocô (MC Créu)... mas um dos funks clássicos, Endereço dos Bailes, não é chamado de Rap, vai lá se saber o porquê.

É muito importante ressaltar que essas primeiras músicas narravam a vida cotidiana da(o) carioca, com letras românticas, tecendo críticas sociais, denunciando classismos, falando sobre as dificuldades da comunidade, a violência, ou simplesmente esbanjando bom humor. O teor sensual sempre esteve lá, mas atual sensualidade explícita contida na letra de muitos funks ainda não era frequente.

Destaca-se nesse bojo de “músicas de denúncia” o Rap do Silva – MC Bob Rum, que relata o assassinato um homem que “apesar” de funkeiro era pai de família. Percebe-se na letra o preconceito que o funkeiro que, em geral, era uma pessoa negra e de periferia sofria: “muitos o criticavam porque ele era funkeiro”, e também o uso do funk como uma forma de expressão e resistência: “O funk não é modismo é uma necessidade, é para calar os gemidos que existem nessa cidade”.

Mas, talvez, o principal “funk de denúncia” seja o Rap da Felicidade – Cidinho e Doca: “eu só quero é ser feliz, morar tranquilamente na favela onde nasci, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Tal música é direcionado para os governantes - “minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer” – a fim de mostrar um grito de clamor pelos problemas que o pobre passa nas favelas – “o pobre é humilhado, esculachado nas favelas”, “com tanta violência eu sinto medo de viver”, “eu moro na favela e sou muito desrespeitado”. É uma carta aberta lida em forma de música, no qual os favelados do Rio de Janeiro uniram vozes para clamar pelos seus direitos.

Também merecem destaque as chamadas “montagens”. Aqui, quem brilhava eram os DJs, não os MCs. Se trata de união de diferentes músicas, vozes, áudios, efeitos sonoros etc, sempre tendo como plano de fundo a batida do Miami Bass. Em geral, as montagens tinham teor humorístico, e não buscavam transmitir uma mensagem específica.

Outro marco importante foi o surgimento da Furação 2000 – uma equipe de som, produtora e gravadora carioca especializada em funk -, cujo papel foi fundamental no que se refere a popularização do Funk à construção de uma identidade nacional do gênero, bem como na descoberta de novos artistas (de fato, todos os MCs citados no texto até agora tiveram seu trabalho divulgado pela Furacão 2000. Embora ainda nos anos 1990, o nome Furacão 2000 profetizou que o Funk seria um gênero proeminente não somente naquela época, mas também no novo milênio que haveria de vir.

Argumenta-se, contudo, que o advento da Furacão 2000, de pouco a pouco, faz com que o Funk, de diversão e modo de a favela expressar suas indignações e cobrar governantes,  passasse a ser só mais produto da indústria fonográfica. A ideia era vender, gerar renda, obter lucro. Nesse sentido as letras, que exprimiam o clamor dos oprimidos passaram a, mais e mais, ter cunho sexual.

Além da Furacão 2000, percebe-se como outro marco para essa mudança o surgimento das “danças”. Como foi já foi argumentado, em um momento inicial, o nome das músicas de funk seguiam a seguinte fórmula: Rap do(a) alguma coisa. Mais ou menos no mesmo período, em surgiram algumas músicas que obedeciam a fórmula Dança da [alguma parte do corpo]. Um exemplo é a Dança da Cabeça, de Mc Neném.  Contudo, até antes mesmo antes dessa música, apareceu no cenário carioca a Dança da Bundinha, da autoria dos MCs Xande e Cabeça. O próprio Mc Neném afirma em seu clássico: “a dança da bundinha já abalou o coração, agora a dança da cabeça também vai ser emoção”.

Essa música foi uma revolução no modo no qual se dançava funk, ou, pelo menos, intensificou essa forma de se dançar. Outrora, nos bailes charme, imperavam os passinhos (os passinhos ainda são comuns no cenário do funk paulista), que, aparentemente, seguiam os passos do FreeStyle estadunidense. Já a dança da bundinha se dança de forma estática...pelo menos os pés, visto que o que se mexe de forma proeminente são os quadris das moças – outro ponto importante: apesar de cantada por homens, a dança da bundinha é dançada por mulheres.

A partir daí, a dança da bundinha foi dançada em todos os outros funks, não somente nesse composto por MC Xande e Cabeça.

Não se pode ignorar as semelhanças da dança da bundinha com danças de origem afro, como o twerk estadunidense e o kuduro angolano. Sofrera o funk alguma influência? Não se pode afirmar ao certo, mas é notável que essa essência africana está presente na dança da bundinha e, consequentemente, no funk carioca.

Com o passar do tempo e com a popularização do gênero, ele foi sofrendo mais e mais modificações, tanto em questões musicais quanto na dança. Nos anos 2000, um exemplo é a inovação trazida pelo grupo Os Havaianos, que “misturou” passos de frevo nas danças. O produto dessa mistura foi uma dança extremamente complexa, no qual as(os) jovens buscavam imitar, inclusive, no ambiente escolar. Apesar desses “passinhos” terem ressurgido, agora com a roupagem do frevo pernambucano, a dança da bundinha nunca foi abandonada.

No que se refere à parte musical, algo interessantíssimo ocorreu. Em algum momento dos anos 2000, a batida de Miami Bass foi substituída por algo que os funkeiros chamam de “batidão”, feito em pick ups ou mesmo via beat box. Esse é o “tchun tchá tchá tchá tchum tchum tchá” que qualquer criança carioca consegue simular com a boca ou com um instrumento de percussão, e que inspirou até sertanejos universitários. Se a dança da bundinha não acabou totalmente com os passinhos, depois do batidão, não houve novos funks que utilizaram batida de Miami Bass.

 O curioso é que essa nova batida não é tão nova assim, pois é o mesmo toque usado em cultos a Orixás em terreiros de candomblé. Não à toa, percebe-se que alguns funks usam atabaques reais para fazer suas batidas e, de fato, todas as comunidades cariocas têm terreiros de candomblé e as músicas de terreiros influenciaram outras músicas de origem negra. Não é absurdo pensar que o terreiro também influenciou o funk que, de pouco a pouco, abandona suas origens estadunidenses.

Contudo, paradoxalmente, o funk, que já nasceu “junto e misturado”, ganha cada vez mais contornos de hibridismo. Um exemplo claro e contemporâneo é a música Bum Bum Tam Tam, de MC Fioti. A música, com batida de Iemanjá, traz na sua introdução uma “flauta que mexe com a gente”. Trata-se do motivo da BWV 1013, de Johann Sebastian Bach, isso mesmo, misturou-se barroco e funk. Misturou-se, talvez, sem saber o que se misturava, pois o videoclipe da música se dá em um contexto egípcio, com dança do ventre, sarcófagos e tudo mais. Talvez, os desenhos animados e filmes nos quais um flautista do mundo árabe toca para fazer uma cobra emergir de um vaso tenha criado essa percepção.

E as letras? Também têm se modificado. Se outrora a maioria falava de amor, hoje, dificilmente se encontra alguma que não fale sobre sexo de forma explícita, pouco poética. Essas músicas têm teor tão forte que são conhecidas como p*taria. Não se ignora também que o tráfico de drogas, que desde o século passado domina as comunidades cariocas, utiliza os funks para fazerem promoção das suas atividades criminosas. Esses são os “proibidões” ou “funk de facção”.

 Destaca-se também que os MCs e DJs, que outrora eram pessoas do povo e falavam dos problemas da paupérie das favelas cariocas, hoje são ricos, filiados a grande gravadoras e ostentam suas riquezas em suas músicas. Nesse contexto, surge também o funk ostentação que em nada é contra as injustiças sociais. E a mulher, na maioria das vezes, é retratada como um objeto sexual, uma “cachorra”, e não como outrora era: uma “princesa”, “uma morena linda, toda deslumbrante”.

 Por fim, como hoje em dia tudo é pop, o funk também ganha essa faceta mais comercial e distante das comunidades, sob a cunha de estrelas midiáticas, como Anitta e Ludmilla, que não levam no peito a denominação que era tão estimada nesse meio: MC.

Mas,  não se argumenta que hoje em dia não haja funks cuja mensagem e dança sejam adequados para estudo na sala de aula. É necessário, da parte docente, interesse na temática e pesquisa de repertório, ou, até mesmo, usar os funks mais antigos. O próximo subtópico buscará mostrar como o funk pode ser o ponto de partida para o ensino de outros gêneros musicais.

Relação com outros gêneros musicais

 

Como foi argumentado na introdução, o objetivo desse texto é mostrar as possibilidades de como o funk pode ser utilizado a fim de apresentar às(aos) estudantes outros gêneros musicais. Argumenta-se que, assim, se valorizará a experiência extraescolar das(os) estudantes, tornando as aulas mais significativas e interessantes, bem como se cumprirá o explicitado nas Leis de Diretrizes e Bases de 1996.

A ideia é, por meio da história do funk narrada no último subtópico, aproveitar a fluidez desse gênero e, desse modo, relacioná-lo com outros gêneros musicais a serem ensinados. Primeiramente, pode-se relacionar o funk com os gêneros musicais que o originaram, mais propriamente, o FreeStyle e o Miami Bass. A partir desses estilos, pode-se chegar todas as outras músicas negras estadunidenses, como o rap, o hip hop, o R&B, o Rock (sim, o rock é uma música negra), o Soul, chegando a músicas negras mais acadêmicas, como o Jazz, o Blues e o Gospel.

Nesse contexto, não se pode deixar de notar as diferenças entre a música negra brasileira e a estadunidense: enquanto a primeira é percussiva, a segunda utiliza instrumentos mais ocidentais, como a guitarra, o clarinete, o saxofone. A resposta é simples, a(o) negra escravizada(o) que foi transportado violentamente para os Estados Unidos foi proibida(o) de tocar instrumentos de percussão, que eram vistos como demoníacos, assim como ainda o são no Brasil.  Elas(es) então, tiveram que adaptar a sua música aos instrumentos dos colonizadores e o resultado foi fascinante: a tristeza do Blues, por exemplo, é a expressão da pessoa escravizada, tirada da sua terra.

É interessante também ver a influência brasileira na música negra americana. O Rock, que antes de Elvis Presley, surgiu com Sister Rosetta Tharpe, uma mulher negra,  só ganhou peso pelas guitarras que, talvez, tenham tido um primeiro protótipo produzido no Brasil e que originou a guitarra baiana. Também é interessante que os acordes da Bossa Nova, que é um subgênero do samba, podem ter influenciado o Jazz americano. A partir do funk carioca, passeamos pelos Estados Unidos até a época do seu período escravista, e voltamos para o Rio de Janeiro, só que agora, na Bossa, com Tom e Vinícius.

A partir do funk, pode-se ensinar também sobre paródias. Como as(os) estudantes gostam de escrevê-las e cantar as suas criações! É uma boa estratégia para aguçar a criatividade e treinar a composição de letras.

Se o funk se originou-se por influência estadunidense e incorporou aspectos da cultura africana, pode-se fazer o mesmo nas aulas de Música, ou seja, a partir do funk ensinar sobre cultura africana. Isso pode ser feito principalmente por meio da batida de terreiro, o pancadão, que foi incorporada a partir dos anos 2000. E, como a maior parte dos ritmos populares brasileiros se originou dos toques de atabaques do candomblé (SANTIAGO, 2021), tomando o funk e a música de terreiro como pontos de partida, pode-se chegar ao maculelê, ao samba, ao pagode, entre outros gêneros, inclusive o sertanejo universitário, que também adotou o tchum tchá tchá.

Os ritmos nordestinos também podem ser contemplados, por meio do “passinho do frevo com funk”, que até hoje suscinta desafios entre passistas: “vou desafiar você”. Uma vez apresentado o frevo, por que não passear pelo restante do Nordeste? Xote? Xaxado? Quadrilha? Baião? São João? De nome, talvez eles não reconheçam, mas todo mundo já dançou nas festas juninas.

E música barroca, elas(es) conhecem? Aquilo que parece tão distante, tão erudito, coisa de gente rica, já foi dançado na favela. Antes de falar de Bach, de barroco, rococó, renascença, pode-se apresentar o MC Fioti. “Ah, mas eu pensei que era música do Egito”, um(a) discente pode exclamar, enganada pelo contexto do clipe. Perfeito! Outro elo criado, agora entre e funk e a world music, mais propriamente, a música egípcia e a dança do ventre. O Egito até tem uma flauta, mas não é aquela do clipe, é uma nay. Cada país tem diferentes flautas também: as(os) indígenas brasilerias(os) têm o Mimby Reta e o Mimby Maraey. O Peru tem a quena e a flauta de pã. A China tem o hulusi e o dizi. A Irlanda tem o Tin whistle, e assim por diante. Daí, é só ganhar o restante do mundo!

Por fim, é importante tecer considerações sobre os contextos sociais nos quais o funk tem sido produzido. É necessário analisar as letras dos funks da década de 1990 a fim de verificar como o mesmo era usado como uma forma de expressão e de resistência contra  o preconceito contra as(os) faveladas(os), que sofriam por conta das suas cargas raciais e por sua classe social. Isso poderia, por exemplo, ser comparado com as tão conhecidas músicas de protesto da Ditadura Militar brasileira.

Também há uma possibilidade de, por meio da música, se discutir o tema Orientação Sexual, conforme é recomendado pelos PCNs: A atual sexualização do gênero e o modo no qual as mulheres são retratadas nas letras podem ser analisados e criticados, levantando assim debates contra o machismo e ensinando as(os) estudantes, dependendo da idade que têm, a exercer a sexualidade de forma saudável.

 

Referências

 

FARIA, Debora Costa de. Narrativas musicais contemporâneas entre o local e o global: os casos do funk brasileiro e do kuduro angolano. Cadernos de Arte e Antropologia, vol. 7, n° 1, 2018.

 

SANTIAGO, Renan. Música(s), no plural!: os significados produzidos pelo processo de planejamento, implementação e avaliação de um currículo multiculturalmente orientado. Tese  (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021.

SANTIAGO, Renan; MONTI, E. M. G. Qual é o perfil de quem pode entrar? Uma análise dos testes de habilidades específicas de cursos de licenciatura em música de universidades federais. Revista Educação, Artes e Inclusão, v. 14, p. 194-220, 2018

 

VIANNA, Hermano. O baile funk carioca: festas e estilos de vida metropolitanos: Dissertação  de mestrado. Rio de Janeiro: Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1987.

Como citar esse texto: SANTIAGO, Renan. Viajando na batida: o funk carioca como ponto de partida em aulas de Música. Portal Música(s), no Plural!, 2022. Disponível em musicanoplural.com/viajandonabatida Acesso em [incluir data de acesso]

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